Artista cearense Blecaute inaugura sua primeira exposição individual no MAUC

“EU NÃO TENHO MEDO” apresenta pinturas que discutem temas como negritude, ancestralidade, periferia, retrato e religiosidade popular. 

Na terça-feira, 3 de junho, às 10h, no MAUC (Fortaleza, Ceará), inaugura a mostra “EU NÃO TENHO MEDO”, primeira exposição individual do artista negro e periférico Blecaute. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a exposição apresenta um recorte de pinturas, que discutem temas como negritude, ancestralidade, periferia, retrato e religiosidade popular.

Sobre a mostra, o artista Blecaute fala um pouco sobre seu trabalho:

“Meu trabalho, ao propor novos imaginários para pessoas negras e faveladas, narra histórias de força, ancestralidade, celebração e espiritualidade. O objetivo é não nos limitar a uma experiência de contemplação estética, mas retomar e um espaço para afetos, memórias e construção.” —BLECAUTE

O curador da exposição, Lucas Dilacerda, explica que a exposição tem o papel de criar novas narrativas sobre a imagem do povo negro. Lucas diz que:

“Ao contrário das imagens de sofrimento e violência que historicamente foram atribuídas ao povo negro, Blecaute nos mostra outras narrativas. Ele nos apresenta cenas de alegria, de coletividade, de espiritualidade e força. Seu gesto é político: é possível falar da dor sem reproduzi-la; é possível lembrar das lutas sem precisar revivê-las em sua forma mais cruel”. —LUCAS DILACERDA

Os retratos de Blecaute subvertem a tradição da história da arte ocidental. O gênero do retrato, historicamente, foi reservado às elites — reis, nobres, clérigos, senhores de escravos. O retrato é uma ferramenta de manutenção do poder: ser retratado era ser eternizado, ser reconhecido, ser lembrado. Mas o que acontece quando esse poder muda de mãos? Quando quem pinta é um jovem negro periférico e quem é retratado são as pessoas comuns da sua comunidade, ou figuras negras históricas apagadas dos livros e das telas? O que acontece é revolução. Blecaute subverte esse gênero. Seus retratos são arquivos visuais de um povo que insiste em existir, mesmo depois de séculos de apagamento.

Na exposição, não vemos apenas imagens — vemos presenças. Presenças que o tempo tentou apagar, mas que a arte insiste em fazer lembrar. E aqui entra o símbolo da sankofa, frequentemente presente nas pinturas do artista: um pássaro africano que olha para trás, nos ensinando que é preciso retornar ao passado para resgatar o que é essencial à caminhada. A exposição, nesse sentido, é também um dispositivo de memória e luta. É um convite a olhar para trás não com nostalgia, mas com sabedoria. Os que vieram antes de nós sonharam a liberdade. Muitos morreram por ela. E, ao lembrar dessas histórias, aprendemos como seguir lutando — em comunidade, em espiritualidade, em festa e em alegria.

As pinturas de Blecaute são arquivos vivos. Cada rosto é um documento, cada cena, uma página reescrita da nossa história. E se não temos registros oficiais, temos agora retratos que atravessam o tempo e nos dizem: “Eu não tenho medo”. A frase, que dá título à exposição e nomeia uma das obras, ecoa como manifesto. Porque lembrar é também lutar.

A mostra nos convoca a pensar a liberdade como conceito filosófico, mas também como prática insurgente. Sartre disse que estamos condenados a ser livres. Angela Davis, por sua vez, nos lembra que a liberdade é uma luta constante. Blecaute parece unir essas duas ideias: a liberdade é uma condição, mas também é algo que precisamos conquistar todos os dias. Cada pintura de Blecaute é uma história escrita em imagens, cores, figuras e expressões. As suas obras nos contam histórias da liberdade, não como um ideal distante, mas como uma condição de existência e de luta cotidiana.

Ao final, nos resta concordar com Mário Pedrosa: a arte é o exercício experimental da liberdade. Por isso, a exposição “Eu não tenho medo” é um convite a olhar para trás, a reconhecer os nossos, e a caminhar adiante — sem medo, com liberdade.

Proteção, obra do artista Blecaute.

A exposição propõe a construção de outros olhares sobre as identidades da população negra e periférica do Ceará. Promovida pelo Sobrado Dr. José Lourenço – espaço que integra a Rede Pública de Equipamentos Culturais da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, gerido em parceria com o Instituto Mirante.

Blecaute é nascido e criado no Conjunto Riacho Doce, no bairro Passaré. Artista visual e estudante de Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará. Concretiza estudos e sua visão de mundo enquanto negro e periférico através das artes plásticas. Como autodidata, começou sua trajetória na pintura digital no final de 2019 e, atualmente trabalha com diversos materiais e linguagens. “Minhas influências são múltiplas e não se resumem a arte visual e a pintura. Acredito que arte, de modo geral, é uma linguagem e cada artista narra sua perspectiva a partir do meio e material que se é possível no momento.” O artista tem passagem por exposições como “Funk: um grito de ousadia e liberdade” no Museu de Arte do Rio, exposição que está em itinerário na Instituição Maison Folie Wazemmes em Lille, França. No ano de 2025, Blecaute fez parte da exposição “Abre Alas 20”, n’A Gentil Carioca, uma das principais e mais tradicionais galerias do Brasil.

Lucas Dilacerda é curador e crítico de arte. É sócio da AICA – The International Association of Art Critics; e também da ABRE – Associação Brasileira de Estética, da ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte e da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. Ganhou o prêmio ABCA 2023 pelo destaque regional no Nordeste com a curadoria da Bienal Internacional do Sertão. Comitê de Indicação do Prêmio PIPA . Realizou mais de 50 curadorias de exposições, 70 cursos e 200 apresentações em diversas instituições de arte no Brasil. Possui mais de 50 textos, críticas de arte e artigos publicados. É professor da Pós-Graduação em Arteterapia e Arte-Educação da UNIFOR. Graduado, Mestre e Doutorando em Artes, pela UFC; Especialização em Arte: Crítica e Curadoria, pela PUC de SP; também é Graduado e Mestre em Filosofia, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, com distinção Summa Cum Laude, pela UFC.


SERVIÇO: Abertura de “Eu não tenho medo”, de Blecaute. Quando: Terça, 3 de junho de 2025, às 10h Local: MAUC – Museu de Arte da UFC Endereço: Av. da Universidade, 2854 – Fortaleza – CE, 60020-181 Período em cartaz: 3 de junho de 2025 a 4 de julho de 2025 Horário de funcionamento: de segunda a sexta das 8h às 12h e das 13h às 17h.

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